Cristiana Leonor de Costa
25 de mai. de 2026, 21:51:12
Caramba, este copo parece um baú de recordações. O líquido é um ouro profundo, quase a brilhar como âmbar velho. No nariz é uma maluquice boa: logo salta um café expresso denso, misturado com doce de laranja amarga quase a lembrar Aperol e um toque mineral que faz cócegas. Depois vem uma ala fumada muito leve, fumo de cone de pinheiro e um travo a pólvora que fica no limite do doce. O presunto Jabugo aparece no fundo, curado, com algo de caldo de carne encorpado e um molho de assado quase bom demais. Há um novelo de chás de ervas, camomila e um amarguinho de genciana e artemísia que limpam tudo. Na boca o primeiro embate é de chocolate a sério, denso e sem pressas, logo empurrado por mel de urze e frutas secas sem fim – alperces secos, passas, tâmaras, ameixas, casca de kumquat cristalizada, marmelo em passa. Parece um massacre de compotas caseiras, mas em modo elegante. A madeira de tuia e o eucalipto-cânfora trazem um ar balsâmico, enquanto se adivinham nozes torradas, um pó de curcuma quase quente e algo de charuto cubano que envolve tudo. O final é longo, com menta fresca, raízes e um abracinho de Ovaltine que me deu nostalgia. Bebendo isto quase precisei de me recompor – a sério. Sabe a 1995 engarrafado, a memórias que nem sabia que tinha.






